Profile
- Ewandro Magalhães
- Brazilian-born conference interpreter, author, translator, speaker, trainer. Married, 3 children.
10/5/09
Profissão de Fantasmas
Partilho com os colegas resenha de minha autoria recém-publicada na Revista de Letras, publicação eletrônica do Departamento de Letras da Universidade Católica de Brasília, que tem à frente o professor Virgílio Almeida. Clique aqui para conhecer a revista:
O artigo está transcrito abaixo, mas também pode ser lido aqui.
Em tempo, um reparo importante. Minha relação com o Departamento de Estado americano e as demais instituições listadas no rodapé do artigo original é de intérprete independente, ou seja, 'contractor'. Não há vínculo formal entre nós. Segue o artigo. Espero que gostem e que se animem a ler o livro.
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Profissão de Fantasmas
Vista de longe a tradução simultânea parece mágica. Vista de perto, parece loucura. Os intérpretes têm que ouvir e falar ao mesmo tempo, repetindo em outra língua palavras e idéias que não são suas, sem perder de vista o conteúdo, a intenção, o sentido, o ritmo e o tom da mensagem transmitida por seu intermédio. Não têm qualquer controle sobre a complexidade, a velocidade, a clareza ou a lógica do apresentador. Precisam atentar para a concatenação de seu próprio discurso, lembrando-se do ponto exato em que largaram cada frase, para fechar com correção um parêntese aberto pelo palestrante em forma verbal subjuntiva. Precisam tomar decisões instantâneas, ininterruptamente. Precisam administrar uma comunicação silenciosa com colegas de cabine, trocando olhares e anotações, fazendo consultas a documentos e dicionários, retardando a tradução de alguns trechos até que o entendimento esteja completo. Como se não bastasse, estão a metros de distância do apresentador, impossibilitados de qualquer interrupção para esclarecimentos. Dá mesmo para duvidar que seja possível.
Talvez por isso, a tradução simultânea – ou interpretação de conferências, para usar o jargão correto – tem exercido um certo fascínio sobre o imaginário popular, com muita gente se perguntando coisas do tipo: Como é possível ouvir e falar ao mesmo tempo? E se o intérprete esquecer uma palavra? E se der um branco na hora? E se ele entender tudo errado? Como é que eles conseguem?
Essa curiosidade, antes restrita a conversas menores, em círculos privados, é agora explorada de modo igualmente curioso. O ofício da interpretação passou a ser enfocado, direta e indiretamente, em diversas obras de ficção para o grande público. Tomemos o exemplo do filme A Intérprete, de Sidney Pollack, que não apenas foi um grande sucesso de bilheteria mas também o primeiro a ser filmado na sede da ONU, em Nova York, privilégio antes negado até a Alfred Hitchcock. No longa-metragem, a protagonista vivida por Nicole Kidman é uma intérprete das Nações Unidas que inadvertidamente toma ciência de um plano para assassinar o odioso ditador de seu imaginário país africano, numa trama de grande suspense.
Um pouco mais realista e específico, mas ainda no reino da ficção, é o romance The Interpreter, de Kim Suki. Neste, a trama tem por centro a vida de uma jovem intérprete coreana que usa seu trabalho para desenterrar detalhes de seu próprio passado. E em livro homônimo, Suzanne Glass – que a propósito tem de fato formação como intérprete de conferências – explora a questão do sigilo profissional, expondo o drama vivido por Dominique, que se inteira de um plano para ocultar uma suposta cura para a AIDS. Mais espionagem e mistério.
Outro romance, O Canto da Missão, escrito pelo britânico John le Carré, traz como protagonista Bruno Salvador – Salvo, para os íntimos –, competentíssimo intérprete de línguas africanas, entre as quais o suaíli. Em meio a muitas observações interessantes sobre o trabalho dos intérpretes e a natureza das línguas, le Carré nos oferece mais uma história de suspense.
Mas a obra de ficção mais interessante a indiretamente abordar o trabalho de um intérprete foge ao gênero espionagem. Curiosamente, é uma história de amor. Segundo o autor, um amor moderno, condicionado pelo mundo em que vivemos e mais próximo da realidade que o literário amor romântico. Narra as desventuras muitas de Ricardo Somocurcio, um peruano apaixonado por uma mulher cujo amor sempre fugaz ele busca, ao longo de quatro décadas.
Trata-se de Travessuras da Menina Má. Longe do clichê glamoroso que teima em mostrar intérpretes como verdadeiros diplomatas e membros do jet-set internacional, sempre rodeados de celebridades, ora em Milão, ora em Tóquio, com escalas obrigatórias em Londres e Paris, o autor Mario Vargas Llosa inova ao caracterizar nosso intérprete como um homem simples e até ingênuo.
Embora Ricardo também viaje pelo mundo e viva em Paris como intérprete da Unesco, sua amada, arrivista social patológica, faz dele gato e sapato, exibindo, além disso, um despudorado escárnio pelo ofício da interpretação, essa “profissão de fantasmas”.
Entre inúmeros desencontros, numa trama recheada de mentiras, Vargas Llosa, que em sua vida de escritor e dublê de político deve ter-se exposto com frequência ao trabalho de intérpretes, faz boa reflexão crítica sobre a impessoalidade e o caráter um tanto frustrante do trabalho de um intérprete. No dizer de Lily, a manipuladora menina má do romance, Ricardo é “alguém que só é quando não é, um hominídio que existe quando deixa de ser o que é para que por ele passem melhor as coisas que pensam e dizem os outros”.
Numa trajetória reproduzida de fato por muitos dos intérpretes de hoje, o protagonista começa atuando como tradutor (espanhol-francês) e vai aos poucos migrando para a interpretação à medida que agrega novas línguas passivas – inglês e russo, no caso.
A obra aborda também a dificuldade de se obter os primeiros trabalhos como intérprete, num círculo profissional bem mais fechado que o de tradutores e onde as associações profissionais, “verdadeiras máfias”, só admitem novos membros “a contagotas”.
Além de nos brindar com a história de uma paixão arrebatadora, Travessuras da Menina Má oferece um bom panorama das transformações sociais e políticas da Europa e, sobretudo, da América Latina em anos recentes. Tudo permeado por certo distanciamento lírico, boas pitadas de humor, e constatações nem sempre doces de alguém que percebe ter traduzido milhões de palavras sem ao final lembrar-se de nenhuma, “porque nenhuma merecia ser lembrada”.
Vale a pena a leitura, pelo estilo rico e agradável de Llosa, pela renúncia à fórmula fácil do suspense, pela crítica que não chega a ofender-nos e pela perspectiva um tanto mais realista do que nos define como intérpretes ou amantes, num mundo que pode ser charmoso e chique, mas que também tem seu lado vil.
Mario Vargas Llosa.
Travessuras da Menina Má.
Tradução de Ari Roitman e Paulina Wacht.
Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 2006. 304 p.
O artigo está transcrito abaixo, mas também pode ser lido aqui.
Em tempo, um reparo importante. Minha relação com o Departamento de Estado americano e as demais instituições listadas no rodapé do artigo original é de intérprete independente, ou seja, 'contractor'. Não há vínculo formal entre nós. Segue o artigo. Espero que gostem e que se animem a ler o livro.
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Profissão de Fantasmas
Vista de longe a tradução simultânea parece mágica. Vista de perto, parece loucura. Os intérpretes têm que ouvir e falar ao mesmo tempo, repetindo em outra língua palavras e idéias que não são suas, sem perder de vista o conteúdo, a intenção, o sentido, o ritmo e o tom da mensagem transmitida por seu intermédio. Não têm qualquer controle sobre a complexidade, a velocidade, a clareza ou a lógica do apresentador. Precisam atentar para a concatenação de seu próprio discurso, lembrando-se do ponto exato em que largaram cada frase, para fechar com correção um parêntese aberto pelo palestrante em forma verbal subjuntiva. Precisam tomar decisões instantâneas, ininterruptamente. Precisam administrar uma comunicação silenciosa com colegas de cabine, trocando olhares e anotações, fazendo consultas a documentos e dicionários, retardando a tradução de alguns trechos até que o entendimento esteja completo. Como se não bastasse, estão a metros de distância do apresentador, impossibilitados de qualquer interrupção para esclarecimentos. Dá mesmo para duvidar que seja possível.
Talvez por isso, a tradução simultânea – ou interpretação de conferências, para usar o jargão correto – tem exercido um certo fascínio sobre o imaginário popular, com muita gente se perguntando coisas do tipo: Como é possível ouvir e falar ao mesmo tempo? E se o intérprete esquecer uma palavra? E se der um branco na hora? E se ele entender tudo errado? Como é que eles conseguem?
Essa curiosidade, antes restrita a conversas menores, em círculos privados, é agora explorada de modo igualmente curioso. O ofício da interpretação passou a ser enfocado, direta e indiretamente, em diversas obras de ficção para o grande público. Tomemos o exemplo do filme A Intérprete, de Sidney Pollack, que não apenas foi um grande sucesso de bilheteria mas também o primeiro a ser filmado na sede da ONU, em Nova York, privilégio antes negado até a Alfred Hitchcock. No longa-metragem, a protagonista vivida por Nicole Kidman é uma intérprete das Nações Unidas que inadvertidamente toma ciência de um plano para assassinar o odioso ditador de seu imaginário país africano, numa trama de grande suspense.
Um pouco mais realista e específico, mas ainda no reino da ficção, é o romance The Interpreter, de Kim Suki. Neste, a trama tem por centro a vida de uma jovem intérprete coreana que usa seu trabalho para desenterrar detalhes de seu próprio passado. E em livro homônimo, Suzanne Glass – que a propósito tem de fato formação como intérprete de conferências – explora a questão do sigilo profissional, expondo o drama vivido por Dominique, que se inteira de um plano para ocultar uma suposta cura para a AIDS. Mais espionagem e mistério.
Outro romance, O Canto da Missão, escrito pelo britânico John le Carré, traz como protagonista Bruno Salvador – Salvo, para os íntimos –, competentíssimo intérprete de línguas africanas, entre as quais o suaíli. Em meio a muitas observações interessantes sobre o trabalho dos intérpretes e a natureza das línguas, le Carré nos oferece mais uma história de suspense.
Mas a obra de ficção mais interessante a indiretamente abordar o trabalho de um intérprete foge ao gênero espionagem. Curiosamente, é uma história de amor. Segundo o autor, um amor moderno, condicionado pelo mundo em que vivemos e mais próximo da realidade que o literário amor romântico. Narra as desventuras muitas de Ricardo Somocurcio, um peruano apaixonado por uma mulher cujo amor sempre fugaz ele busca, ao longo de quatro décadas.
Trata-se de Travessuras da Menina Má. Longe do clichê glamoroso que teima em mostrar intérpretes como verdadeiros diplomatas e membros do jet-set internacional, sempre rodeados de celebridades, ora em Milão, ora em Tóquio, com escalas obrigatórias em Londres e Paris, o autor Mario Vargas Llosa inova ao caracterizar nosso intérprete como um homem simples e até ingênuo.
Embora Ricardo também viaje pelo mundo e viva em Paris como intérprete da Unesco, sua amada, arrivista social patológica, faz dele gato e sapato, exibindo, além disso, um despudorado escárnio pelo ofício da interpretação, essa “profissão de fantasmas”.
Entre inúmeros desencontros, numa trama recheada de mentiras, Vargas Llosa, que em sua vida de escritor e dublê de político deve ter-se exposto com frequência ao trabalho de intérpretes, faz boa reflexão crítica sobre a impessoalidade e o caráter um tanto frustrante do trabalho de um intérprete. No dizer de Lily, a manipuladora menina má do romance, Ricardo é “alguém que só é quando não é, um hominídio que existe quando deixa de ser o que é para que por ele passem melhor as coisas que pensam e dizem os outros”.
Numa trajetória reproduzida de fato por muitos dos intérpretes de hoje, o protagonista começa atuando como tradutor (espanhol-francês) e vai aos poucos migrando para a interpretação à medida que agrega novas línguas passivas – inglês e russo, no caso.
A obra aborda também a dificuldade de se obter os primeiros trabalhos como intérprete, num círculo profissional bem mais fechado que o de tradutores e onde as associações profissionais, “verdadeiras máfias”, só admitem novos membros “a contagotas”.
Além de nos brindar com a história de uma paixão arrebatadora, Travessuras da Menina Má oferece um bom panorama das transformações sociais e políticas da Europa e, sobretudo, da América Latina em anos recentes. Tudo permeado por certo distanciamento lírico, boas pitadas de humor, e constatações nem sempre doces de alguém que percebe ter traduzido milhões de palavras sem ao final lembrar-se de nenhuma, “porque nenhuma merecia ser lembrada”.
Vale a pena a leitura, pelo estilo rico e agradável de Llosa, pela renúncia à fórmula fácil do suspense, pela crítica que não chega a ofender-nos e pela perspectiva um tanto mais realista do que nos define como intérpretes ou amantes, num mundo que pode ser charmoso e chique, mas que também tem seu lado vil.
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Conference Interpreter:
MA in Conference Interpretation
Monterey Institute of Int'l Studies
Member, TAALS
Contractor w/ State Department
Contractor with the ICC
Contractor with the IMF
Contractor with the World Bank
Contractor with the OAS
Contractor with the IADB
Contractor with the IADC
Contractor with PAHO
Working Languages:
Por (A), Eng (B), Spa (C)
Working knowledge of German, French, Italian
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Published Author:
- Sua Majestade, o Intérprete - 2007
- O Melhor do Conto Braziliense - 2006
- O Eu em Cubos - 2003
PRESS ROOM
- CBN Radio Talk Show, 2007
- Correio Braziliense, 2007
- Dicas da Dad, Correio Braziliense
- Jornal do Brasil, 2004
- Radio Senado Talk Show
- Radiobras Talk Show, 2007
- Resenha, Adail Sobral
- Revista Lusofonia, Africa, 2007
- Revista Língua Portuguesa, 2007
- Revista Universidade Católica
- Revista Universidade Católica II
- Translation Journal, Book Review
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3 comments:
Hello! I'm very interested in interpretation. And I hope to become an interpreter.Could you please share with me some advices that how to become a good interpreter?
Olá Ewandro,
Sou Adriana. Em 20 anos de vida profissional os 10 primeiros foram um misto de intérprete e profissional da área de bem-estar (como se diz hoje), ligada à yoga, ayurveda (medicina indiana) e meditação. A minha formação acadêmica mesmo foi na área da tradução: Foi Letras-Inglês-Português com habilitação em Tradução aqui no Rio. Os segundos 10 anos de 1999 à 2009 foi mais na área mesmo do bem-estar e houve uma parada na área da interpretação. Foi um tempo de muitos cursos, muitas mudanças pessoais. Agora, eu deixei de vez a área do bem-estar e me propus a voltar e me integrar no mercado de interpretação. Eu tenho um site em que apresento os serviços e tem a trajetória e tal. www.adrias.info
O que eu gostaria é de trocar algumas idéias. Eu tenho algumas perguntas do tipo: Você acha que a profissão de intérprete é uma profissão para pessoas bem mais velhas? Eu tenho 44 anos, vi que você tem 46, e retomando essa profissão fiquei pensando se o mercado aceita intérpretes com muito mais idade. Você se imagina interpretando aos 70? Enfim, são questões que eu gostaria de trocar idéias. Saí das atividades antigas por várias razões e já pus o pé na retomada de uma profissão na área das línguas. Como já passei dos 40 e tomei coragem de fazer isso, ainda assim, penso sobre o futuro dessa decisão e profissão. Se você tiver tempo, tenho algumas idéias que gostaria de trocar. Se puder dá uma olhada no site, que você vai me conhecer melhor. By the way, sou do signo de gêmeos também....!(bem, também estudei e trabalhei sempre com linguagens simbólicas, astrologia, numerologia, etc, tenho um blog disso, www.adrias.wordpress.com
Um abraço,
Adriana
www.adrias.info
Adrias,
Obrigado pelo comentário e bem-vina de volta a seu antigo mundo profissional. Não se preocupe quanto à idade. A interpretação é um dos poucos ofícios onde a experência parece contar a favor -- e não contra -- o intérprete. Tenho, sim, inúmeros colegas na casa dos 70. Desempenham-se excecionalmente bem e têm muito prestígio também. Se me vejo interpretando aos 70? Acho que não, mas apenas porque aos 70 quero estar com o burro na sombra e não fazer outra coisa a não ser escrever. Mas... a cachaça da interpretação é difícil de largar. Obrigado pela visita. Volte sempre.
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